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Victor Erice Editar

Victor Erice é, com toda certeza, o segredo mais bem guardado do cinema espanhol. Com apenas três longa-metragens (e dois curtas) em mais de trinta anos de carreira cinematográfica, este cineasta compôs algumas das mais intrigantes e belas obras do cinema mundial do período imediatamente após a década de 60 – com especial destaque para seu filme de estréia, o inacreditável O Espírito da Colméia de 1973. No entanto, a recepção da obra de Erice parece acompanhar inversamente a excelência de seus filmes, pois, apesar de ter ganhado o grande prêmio do júri em Cannes em 1992 por seu terceiro filme O Sol do Marmeleiro – e também de ter recebido um prêmio análogo no Festival Internacional de São Paulo em 1984 por seu segundo filme O Sul de 1983 – ele continua um cineasta praticamente não visto. Nesse sentido, uma oportunidade de ver seus filmes se apresenta como um evento digno de atenção. Erice inicia sua filmografia em 1973 com o filme O Espírito da Colméia (El Espíritu de la Colmena). Obra considerada por muitos como hermética, esta narrativa da relação entre duas crianças – as irmãs Ana e Isabel, encenadas pelas atrizes mirins Ana Torrent e Isabel Tellería – que assistem o clássico Frankenstein de James Whale em um pequeno cinema numa vila do interior da Espanha à época da derrocada da Guerra Civil Espanhola (início da década de 40), e que, após assistirem ao filme iniciam um jogo fantasmagórico de encenação/recusa da realidade com a finalidade de invocar o mítico monstro, adquire contornos de alegoria política se lembramos que esta época assiste à vitória do general Francisco Franco, instaurador do fascismo na Espanha. Além das crianças, o filme retrata os personagens da mãe e do pai, adultos completamente imersos em um mutismo desolador que passam seus dias em atividades solitárias: a mãe a escrever cartas para um outro homem desconhecido (um amante?), o pai, a escrever um tratado acerca do cultivo de abelhas (o que talvez sirva como uma referência a um outro ícone do pós-guerra espanhol: o escritor Camilo José Cela, que não só combateu naquele conflito no lado franquista, como tem sua principal obra em um romance intitulado A Colméia de 1951). Entretanto, o que realmente impressiona neste filme é a sua beleza plástica. Tendo como diretor de fotografia o grande Luis Cuadrado (que estava ficando cego à época) a câmera passeia pela planície espanhola ressaltando toda a desolação que atravessa o filme; ao passo que, quando o plano se dá nos interiores da casa onde vivem as crianças, a composição do jogo entre claro/escuro parece querer dizer ao espectador que a única realidade ali é a do pesadelo. Impressionante também é a atuação que Erice consegue retirar das crianças, principalmente da atriz Ana Torrent – que mais tarde atuaria no filme Cría Cuervos de Carlos Saura – que com a idade de apenas oito anos consegue imprimir uma profundidade assombrosa a sua atuação. Se existe um filme que conseguiu captar o ambiente infantil no que ele tem de imaginativo e mágico – ao mesmo tempo em que transcende este ambiente – este filme é O Espírito da Colméia.

Após um hiato de 10 anos, Erice filma O Sul (El Sur), a estória de uma garota fascinada pelo passado de seu pai e pelo sul da Espanha, elementos intimamente conectados e misteriosos para ela. Muitas características fazem deste filme se assemelhar ao anterior, podendo até ser compreendido como uma continuação. Assim como em O Espírito da Colméia, os protagonistas mantêm-se completamente isolados, forjando suas identidades em um ambiente frio e árido, marcado por um passado mal-resolvido ou simplesmente incompreensível. É possível, a partir destes elementos, ver uma intenção alegórica de Erice, ao atrelar o sentimento de isolamento e melancolia dos personagens ao dos espanhóis no período da Ditadura Franquista. Mas O Sul também permite interpretações ainda mais profundas. Isto só se torna possível através do extremo cuidado e precisão com que o diretor cria um ritmo deliberadamente calmo e pacífico para o seu filme, nos permitindo observar atentamente as palavras, os rostos e gestos dos personagens, e, por conseqüência, ver aí os seus mais profundos sentimentos. O Sul à que se refere o filme também não é apenas a região da Espanha que os personagens mantêm distância, mas uma presença mítica, lugar imaginário que não pode ser alcançado ou visto. Tanto um paraíso perdido quanto um pesadelo, o sul é o lugar onde os personagens devem imaginar de alguma maneira para formarem suas próprias identidades. Bem como através da fotografia e do ritmo, o isolamento nestes filmes é reforçado através de metáforas de enquadramento e do som. Quadros dentro de quadros, janelas e portas abundam em seus filmes, indicando a angústia existencial dos personagens e o isolamento destes de um mundo do qual estão excluídos, enquanto os sons fora de quadro (latidos, tiros, vento, etc), assim como as palavras ditas ou escritas pelos personagens apontam para o desconhecido da imaginação e da memória. Desta forma, através da relação entre imagem e som, pode surgir a identidade e o conhecimento, partilhado tanto quanto com os personagens quanto, por quê não?, com os expectadores. Após uma versão provisória do filme ser enviada para exibição em Cannes e aclamada como uma obra-prima, as filmagens de O Sul foram interrompidas. Infelizmente, para sempre. Assim, o filme entrou no seleto grupo das obras-primas cinematográficas incompletas, como Greed, de Erich Von Stroheim e Magnificent Ambersons, de Orson Welles. Assim, após El Sur, exibiremos uma entrevista de Erice para a TV espanhola, em que ele explica como foi o fim da conturbada filmagem assim como descreve como seria o final original e desejado para o filme. O terceiro e último longa-metragem de Victor Erice é O Sol do Marmeleiro (El Sol del Membrillo) em que o autor pôde abordar as questões essenciais de seu cinema de forma direta, sem concessões. Este filme documenta os esforços do artista Antonio Lopez em pintar o pé de marmelo do quintal de sua casa antes que as frutas caiam no fim da estação. Para que possa captar a luz que esta árvore reflete, torna-se necessária a observação metódica e contemplativa, em um longo período de estudo e reflexão. Uma luz escultural que afete fisicamente o seu espectador é desejada, assim como sutis mudanças na composição do quadro, registrando a passagem e dissolução do tempo. Falo aqui do pintor ou do cineasta? Talvez dos dois, já que este limite, assim como outros são continuamente quebrados neste filme em prol de uma visão única do processo criativo, do tempo e da morte. Todas as pessoas no filme representam a si mesmas, tornando impossível distinguir as “pessoas reais” de seus aspectos ficcionais que os transformam em personagens. Passagens claramente ficcionais se misturam com planos cuidadosamente documentais do dia-a-dia destas pessoas. Não é possível estabelecer uma divisão cristalizada entre estes planos, assim como é impossível capturar a dinâmica da luz e da vida sem percebê-la como um processo contínuo no tempo. A tensão entre a permanência (pintura) e o tempo (cinema) que inicialmente se apresenta, se dissolve continuamente. O processo criativo que surge como criação, instaura também a morte, podendo representar tanto os ritmos e ciclos da vida quanto a relação profunda que há entre morte e vida.

  • 11/05/2007 –“O Espírito da Colméia”, de Victor Erice

• “O Espírito da Colméia” (“El Espíritu de la Colmena”, Espanha, 1973). 97 min. Direção e roteiro: Victor Erice. Com: Ana Torrent, Fernando Gómez, Teresa Gimpera e Isabel Tellería • Total: 1h 37 min

  • 18/05/2007 –“O Sul”, de Victor Erice

• “O Sul” (“El Sur”, Espanha/França, 1983). 95 min. Direção e roteiro: Victor Erice. Com: Icíar Bollaín, Omero Antonutti, Lola Cardona, Rafaela Aparicio e Aurore Clément • “Regreso al Sur – Entrevista a Victor Erice” (Espanha, 2003). 21 min. TV Española. • Total: 1h 56 min

  • 25/05/2007 –“O Sol do Marmeleiro”, de Victor Erice

• “O Sol do Marmeleiro” (“El Sol del Membrillo”, Espanha, 1982). 133 min. Direção e roteiro: Victor Erice. Com: Antonio López Garcia, Marina Moreno, Enrique Gran, Maria López e Carmen López • Total: 2h13 min