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Sem Destino, o primeiro livro do Húngaro Imre Keretz mostra uma visão do holocausto, ou mais precisamente, da vivência num campo de concentração. Através da percepção de um menino que se encontra no meio de todos os acontecimentos já conhecidos por todos nós mas, através da visão de Keretz, que inclusive já foi preso em um campo de concentração, toda essa concepção do campo como a visão do inferno cai por terra, e acabamos descobrindo através desses olhos, um lugar que poderia até conter um lirismo, e a caricatura de oficiais alemães que só pensam em humilhar os presidiários e torturá-los até a morte. Os alemães aqui sorriem, possuem uma ternura, demonstram o seu lado humano a todo momento, deixando claro que não é o homem o mau na história, e sim a situação a qual eles estão inseridos. Tirado da sua família de uma maneira brusca, a saga dessa criança começa com a ida do pai a campos de trabalho. Deixando sua madrasta e toda a família num jantar de despedida. O ritual aparenta ser a de um último adeus, mas ainda sim pressente-se a esperança da volta. O tio conversa com o menino e já coloca sobre seus ombros a responsabilidade de ser, à partir daquele momento, o homem da casa. As situações vão acontecendo de maneira seqüencial, mas tudo é amparado pela falta de percepção do menino, desde da imposição de utilizar a estrela amarela no peito, indicação imposta à todos os judeus, até a de trabalhar na fabrica todo o dia. Isso era o sinal de seu amadurecimento, achava ele. Até que chega o dia que seu ônibus foi barrado por uma blitz alemã e todos os integrantes e demais funcionários da tal fabrica são levados para um campo de concentração. No início percebemos que todos não sabem o que se passa. Todos possuem seus documentos de trabalhadores e acreditam que sairão de lá em breve. Mas não é o que acontece, pelo menos para o garoto, até ele retornar à sua cidade, à sua casa, irão se passar um ano. A narração da passagem pelos campos de Auschwitz e de Buchenwald é fria e direta. A descrição das situações é perfeita, mas tudo contando da visão do garoto, que até percebe um certo tédio em Auschwitz, coisa que parece antagônica perante toda a nossa visão do campo da morte. A descaracterização do ser humano aos poucos é algo que atrai também na narrativa de Keretz. Ele coloca até mesmo os próprios integrantes dos campos de concentração como pessoas baixas, que até na desgraça pensam em tirar alguma vantagem, algo que lembra as cenas que vemos nos filmes de cadeia, onde o escambo é constante e, mesmo que tenha uma pessoa do seu lado morrendo de fome, você não entregará a sua mísera fatia de pão à ele, pois ele não possui o rabanete que você quer, ou outra coisa. A visão do trabalho, os maus tratos, tudo é percebido por ele. Os dias marcados pelas chamadas de refeição, o trabalho e a visão dos que o rodeavam, a percepção do sumiço de alguns integrantes do seu dia a dia, dando a entender que foram mortos ou morreram por não agüentar. È interessante que ele apenas cita a câmara de gás como algo que ele viu, e todas as historias de chacinas eram coisas que ele tinha ouvido dizer. Até chegar no dia do retorno quando ele encontra o jornalista que queria pegá-lo como fonte de uma matéria sobre os campos. Fato interessante da individualidade que perpetua no protagonista é, o que se passa na cabeça dele quando ele é liberto, e escuta as pessoas lá fora do pavilhão médico onde ele se encontrava anunciando que estavam todos soltos. Ele só pensava no atraso da janta. Parece que ele não acreditava nunca mais sair daquele lugar. O momento final nos deixa um tanto quanto impressionados, quando ele assume que existia uma beleza nos campos de concentração. Foi o que disse antes, a visão dele, foi isso que ele viveu. Ele não presenciou nada do que o jornalista queria colocar na sua cabeça, a visão do inferno...ele não havia estado no inferno, existiam pessoas que estavam em campos de concentração havia seis, doze anos, e eles praticamente construíram uma vida ali dentro. Pessoas que saíram de casa para trabalhar num dia, como ele mesmo, e sumiram de suas famílias. Lá nos campos, pelo menos era de trabalhos e alguns momentos de tédio. O trabalho era puxado, eram mau alimentados, mas mesmo assim, havia uma amizade, tanto entre os presos, que não sabiam o porquê de estarem presos, muito mais por não cometerem nenhum crime, e também pelo tratamento de alguns alemães que passaram pela vida do protagonista. Ao voltar à sua cidade natal, e reencontrar amigos de antes, a discussão sobre de quem seria a culpa, e o ódio que o protagonista sentia pela sua própria pátria, demonstram um sentimento paradoxal. Enfim, o livro é uma experiência indispensável para quem quer conhecer outras visões dos campos, vividos por alguém que estava presente, e conseguiu de uma maneira surpreendente mostrar um lado humano de todo o horror dessa historia. Ganhador do premio Nobel de literatura em 2002, Sem destino é um relato seco e sincero de uma das páginas mais tristes de nossa história.


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