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“Pickpocket” de Robert Bresson (França, 1959)Editar

O Ballet dos gestos

Nesta obra seminal, marco na história do cinema francês e mundial, Robert Bresson demonstra que não é necessário um enredo fascinante, atores bem treinados, ou uma fotografia exuberante para fazer um grande filme. Basta uma direção primorosa e um conceito atenciosamente trabalhado. De fato, a história se resume a um homem fracassado que decide tornar-se um batedor de carteiras, sua relação com a própria mãe, com Jeanne (a mulher por quem se apaixona), e com alguns amigos, policiais e colegas. Nada surpreendente, e, enquanto história de amor, muito pouco convincente. Os protagonistas são atores iniciantes, Martin LaSalle e Marika Green fazem sua estréia no cinema neste longa, e em momentos parecem recitar suas falas, ao invés de interpretá-las. A fotografia é bela, mas pouco ousada, não chegando a chamar atenção para si.

Um filme chato (em todos os sentidos da palavra), onde nada se destaca, sem grandes atrativos, poderiam pensar. Mas não é nada disso, na realidade. Em seus breves 79 minutos, “Pickpocket” impressiona por seu conjunto, ou melhor: pelos seus detalhes e pela maneira como eles se justapõem para formar um todo harmonioso. A atenção dada a cada gesto, cada movimento, sublinha a maneira como Bresson desvincula sua obra do “teatro filmado”, levando em conta mais a composição de cada imagem do que a história que está sendo contada. A riqueza deste filme encontra-se naquilo que nele é mínimo.

O tema ajuda, é claro. Roubar é uma atividade que exige calculada frieza, movimentos leves, mãos ágeis, atenção aos detalhes. No filme tudo isto transparece, permanecendo uma constante atmosfera de tensão, de emoções à flor da pele escamoteadas pela necessidade de se parecer inocente. Mais ou menos o que se sente quando se entra em uma loja com o intuito de roubá-la. Em uma cena especialmente marcante, três ladrões roubam diversas pessoas em uma estação de trens, com extrema ousadia e habilidade. Neste momento, seus gestos parecem coreografados: um ballet de mãos, passos, carteiras, bolsas, e sobrancelhas franzidas entrando e saindo de quadro, enganchando-se delicadamente, a ponto de tudo quase parecer um plano-sequência, de tão bem construído.

No fim das contas, esta cena é como um resumo do todo, pois exemplifica toda a delicada tensão na qual repousa o filme. Imperdível.

"...cada plano é como uma palavra, que em si mesma não significa nada, ou antes significa tantas coisas que no fundo não tem significado nenhum. Mas uma palavra num poema é transformada, o seu significado torna-se preciso e único, ao ser posta em relação com as palavras que a rodeiam: do mesmo modo, um plano num filme ganha significado graças ao contexto, e cada plano modifica o significado do anterior até que com o plano final se atinge um sentido total, que não se pode parafrasear. Representar não tem nada a ver com isto, não pode ser mais do que um obstáculo. Os filmes só se podem fazer ultrapassando a vontade daqueles que neles aparecem; servindo-se não do que eles fazem, mas do que eles são."

Robert Bresson, citado por Susan Sontag em "O estilo espiritual nos filmes de Robert Bresson" in Contra a Interpretação (e outros ensaios), Gótica, Março de 2000

...............................................................Loucamente ou estranhamente inspirado em Crime e Castigo de Dostoievski, esse filme traz a arte de roubar carteiras... a habilidade das mãos flexíveis e ágeis... o homem que passa incólume por (quase) todas as situações ...a maleabilidade das mãos... e a impossibilidade de abandonar o prazer quando ele toma conta de todo o ser... filme repleto de sutilezas, discrição... uma metafísica dos olhares... um filme de detalhes, mãos, objetos, percepções rápidas, fugidias... um sujeito que resolve viver do inesperado, da adrenalina que corre em seu sangue minutos antes de ato, as incertezas, o perigo de ser pego, o anonimato, o passear pelos metrôs de Paris, sem destino, sem nome, somente a vontade incomensurável de furtar .............

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