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"Faces", de John Cassavetes (EUA, 1968)Editar

Confesso que quando fui ver Faces (de John Cassavetes, 1968) não sabia muito o que esperar. Certo que não seria um filme convencional visto a proposta do Cineclube Subterrâneos, criado em 2005 com o objetivo de mostrar filmes de diversos autores importantes, com diversos tipos de linguagem, filmes internacionais que não foram exibidos no Brasil; sabia que não seria algo de fácil entendimento.

Não conhecia nada da filmografia de John Cassavetes, a não ser a sua importância para o cinema independente norte-americano, e as suas abordagens que aproximavam dos dilemas obscuros humanos e insegurança social tão abordados no cinema europeu.

Falando sobre o filme propriamente dito, é algo que impressiona de uma maneira um tanto quanto desconfortável. A utilização de uma câmera que poucas vezes se mantêm fixa num ponto, os ambientes; a maior parte o filme é filmada em casas, em suas salas; acompanhando todos os movimentos dos protagonistas, e com essa opção de utilizar a câmera na mão, dando uma maior intimidade do espectador com o filme, praticamente nos inserindo naquela reunião, naquela sala e nas angustias e solidão de cada personagem. Em vários momentos flagramos algum personagem que fica introspectivo em um canto, enquanto o outro se diverte com a mulher no centro da sala, dançando ao som de uma música no rádio. Acabamos por nos afeiçoar àquele excluído, nos juntando ao seu momento de solidão e depressão depois da euforia de uma noite frustrada e de relacionamentos que se desgastaram.

O roteiro é apenas uma linha condutora da trama, uma outra característica marcante no cinema de Cassavetes é o de explorar o potencial criativo de seus atores, grandes partes do filme são feitas através de improviso reforçando a idéia, também com a utilização de vários closes e da câmera que viaja freneticamente pelos personagens, de praticamente jogar o espectador no meio daquele cenário, de cigarros, bebidas e divagações sobre o mundo.

Algo que assusta também é a postura dos personagens em defender suas posições. Tal discussões chegam a se tornarem brigas físicas, Grandes discussões sobre a função da amizade, entabuladas entre Richard Frost (John Marley), empresário que na meia-idade, com uma carreira sólida e que passa a questionar a sua situação e a crise de uma meia idade rotineira por causa de seu trabalho e a aparição na sua vida de Jennie Rapp (Gena Rawlands), uma jovem mulher que não acredita na amizade e que proporciona à Richard uma nova aventura em sua vida, levando-o de volta à uma juventude um tanto quanto sufocada pelos seus compromissos atuais. Richard acaba por deixar Maria Frost (Lynn Carlin) sua esposa, por uma aventura de uma noite. Maria, uma mulher enclausurada em sua casa, totalmente devotada ao marido e com uma vida caseira, começa a buscar com suas amigas uma escapatória daquele ambiente claustrofóbico em que se encontram. E através da juventude ela busca um novo sentido para a sua vida, e deixa um pouco de lado as convenções sociais impostas, largando a sua devoção à um casamento de fachada para seguir a sua vida, pelo menos por aquela noite.

O filme é uma pequena amostra do que se passava naquela mudança de comportamento nos anos 60. A guerra no Vietnã, o rock n roll, a contra-cultura, a juventude buscando novos valores e o choque com o antigo. As pequenas nuances do filme como a maneira de se vestir dos jovens, a calça jeans e o casaco de couro, contrastando com os ternos dos mais velhos, as roupas das mulheres e seus penteados fixos, dando a idéia de formalidade e de uma postura mais séria para essas pessoas, mas acaba que o espírito audacioso da juventude, tanto do lado de Richard como do lado canhestro de Maria, começam a despertar para um novo tipo de ar.

O filme vale a pena ser conferido, apenas de achar que duas horas de projeção foi um pouco demais, em alguns raros momentos o filme se torna arrastado, mas mesmo assim é impossível sair do filme sem um estranhamento, muito mais porque, sempre buscamos prever o quê irá acontecer com os personagens devido a tal e tal comportamento, e percebemos no fim que acaba por nos contradizer. O final é emblemático, contrariando muitos, ou até mesmo compactuando, bem não saberia dizer sinceramente. Uma coisa é certa. Acabamos por não julgar as atitudes tomadas pelos personagens, e vemos que o nosso conceito de mal ou moral, depende simplesmente do ponto de vista de cada personagem. Afinal a grande questão do filme é: vale a pena castrar seus desejos pela simples consideração à uma instituição que não representa mais nada para o casal, somente para se enquadrar numa sociedade que está sendo contestada por uma juventude em seus ideais?


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