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François Marie Arouet, conhecido mais pelo nome de Voltaire foi um dos maiores filósofos franceses, um dos marcos do “período das luzes”, momento de valorização da razão. Ele viveu de 1694-1778.

Foi educado no colégio jesuíta de Lois-le-grand, de onde dizia ter aprendido apenas latim e coisas estúpidas. Aos 17 anos ele saiu da escola e começou a fazer suas primeiras amizades na aristocracia francesa.

Em 1717 foi preso por onze meses na tão famosa Bastilha por ter escrito contos satíricos sobre o governo francês. Na prisão ele escreveu seu primeira peça teatral, Oedipe. Mas essa foi só a primeira confusão em Voltaire se envolveu durante toda sua vida. Seu relacionamento com o poder foi sempre de amor e ódio, sendo apadrinhado por inúmeros nobres, em diferentes regiões como Frederico, o Grande, rei da Prússia que o havia apadrinhado quando foi expulso da França por seus textos exaltando as leis inglesas, coisa que foi considerada como uma crítica dura aos fundamentos franceses.

Voltaire costumava escrever contos para entreter seus amigos, conquistar amantes ou para mera diversão para os salões das casas da aristocracia, mas em Cândido ele levou essa tarefa mais a sério. Cândido inicialmente não foi assinado, mas tudo indicava que havia sido mesmo Voltaire que havia escrito o texto. Ele foi um sucesso imediato na época.

Fazendo uma crítica ao positivismo metafísico do pensador alemão Gottfried Wilhelm Leibniz. Candido é um personagem típico da literatura romântica, um cavalheiro que lembra o Dom Quixote de Cervantes em seu amor cego à sua amada, no caso de Cândido, Cunegundes. Educado pelo seu mentor Panglos que acredita que tudo está ótimo, defensor árduo do Positivismo metafisico, ele justifica todos os acontecimentos por essa teoria. Cândido acredita que esse otimismo cego é necessário, e que tudo que existe é o melhor para cada um. No decorrer do texto, você começa a perceber a sua devoção cega à sua amada, mesmo pelas mais adversas situações pelas quais ele passa, não abandonando a esperança de reencontrar sua amada e poder viver com a bela Cunegundes até o fim de sua vida.

Uma saga cheia de infortúnios, Cândido é testado em sua viagem pelo mundo, as desgraças vão se tornando rotinas em sua vida, e também o encontro com pessoas que se tornaram amigas em sua saga, com vivências das mais variadas e conceitos bem diferentes das que seu mestre o ensinava. Vemos que a vivência é o ensinamento mais importante. Martinho, seu último companheiro, é um pessimista completo. Ele não possuia a vida farta de Candido e nem do seu mestre Panglos, levando em conta esse fato, percebe-se que o bem e o mal é uma questão de posição. Panglos não havia viajado e conhecia tudo pelos livros, candido passa seu mestre exatamente no momento em que pisa fora de casa. A vida começa com a primeira decepção. A vida não é exatamente como Panglos o havia dito, e ele sempre relembra Panglos quando visita eldorado, ou situações menos afortunadas que essa. Até o rencontro com seu mestre. Mesmo assim, Panglos não assume seu erro. Essa é a falha dos filósofos, eles se recusam a aceitar o erro, e é dificil voltar à tras.

Cândido começa a questionar o porquê de aceitar tudo como o melhor que poderia ser para a vida dele. Perde sua amada, sofre como foragido, é roubado, sofre de todas as maneiras, é a típica referência ao Jó da Bíblia, Devoto testado por Deus, que quer provar ao diabo que Jó possuía uma fé cega em Deus e, mesmo sofrendo as mais fortes pragas e desgraças, continuaria a acreditar em Deus. Cândido é isso. É a luta de uma pessoa em tentar acreditar no otimismo, negando a existência do mal, e acreditando que todos possuem um destino que é o melhor para ele, mesmo vendo o mundo rodeado de guerras e assasinatos, um querendo tirar vantagem do outro, e mesmo sendo bom, ele sofre até conseguir recuperar a sua Cunegundes, que acaba por perder depois e ter que empregar outra busca por sua amada.

Ao ler o livro, é possível ficar com raiva de tamanha complacência com tudo o que estava acontecendo, a inocência absurda dos atos de Candido e da crítica mordaz de Voltaire que alfineta muitos pensadores de sua época, principalmente os enciclopedistas, grupo de pensadores franceses que ditavam as regras dos iluministas, e Voltaire acabou desacreditado do movimento, pois acreditavam que a razão iria dominar logo que o poder fosse deixado nas mãos dos homens, mas a guerra corre nas veias, e a tão sonhada paz em que eles acreditavam não surgiu.

A edição da editora Martins Fontes de 1990 possuí um texto introdutório interessante, situando Cândido na época em que foi escrito, os principais acontecimentos e fatos que são citados no romance. Uma pequena biografia de Voltaire e também apresenta inúmeras notas de rodapé durante o texto, que ajudam a captar as nuances e as tais alfinetadas de Voltaire na sociedade e pensadores da época. É uma ótima leitura, pois quanto mais um personagem incomoda mais o livro é atraente. Um personagem como esse acaba instigando o leitor à chegar até o fim do livro pra ver se sua postura justifica tamanho sofrimento ou se haverá algo que irá mudar a cabeça dele. Mas isso você só irá descobrir se ler o livro.


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